Consumista que sou, comprei o sapato proibido. Ah, sensação de alívio quando saí da loja com a sacola contendo aquele sapato dos sonhos. Mas o sapato dos sonhos, como quase todos os sonhos, era caro, muito caro. E quem disse que eu liguei? Eu podia cortar uns gastos, por exemplo, não ir à festa com o pessoal, e só comprar o básico e essencial no supermercado. Por uns poucos 5 meses. Mas aquele sapato, ah! aquele sapato ia estar no meu armário. Seria só meu para exibi-lo e me sentir linda com ele. Todos iriam me olhar. Iam me olhar, mas iam me ver? Se as pessoas olhassem meu sapato, não iriam se preocupar com o resto de mim, porque aquele sapato era perfeito demais para ser ignorado ou esquecido cinco minutos depois. Nossa, já estou supervalorizando um SAPATO. Mas a verdade era essa, lamento.
Cheguei em casa, sapatos cuidadosamente colocados lado a lado no armário. Como eu ia arrasar com eles. Corri para ligar para minha amiga e chamá-la para algum lugar onde eu pudesse usá-los. Mas antes fui escolher muito bem que lugar seria. Um barzinho? Eu adorava barzinhos; mas aquele sapato era digno de um lugar mais chique. Balada, nem pensar, com gente derramando bebida em cima do meu pobre sapatinho dos sonhos, gente bêbada pisando nele, coitado. Ninguém ia casar, eu não conhecia ninguém com filha que ia fazer quinze anos... Ah, mas tinha a festa da Laurinha! Claro, como eu esqueci! A festa era em um mês e eu já podia me preparar pra ela! Mas faltava um vestido. E teria que ser O vestido, um senhor vestido, um vestido de botar no chinelo aqueles usados pelas atrizes de Hollywood em noite de Oscar. Só podia ser assim para combinar com meu sapato perfeito. Sim, eu sou uma pessoa exagerada.
No dia seguinte, comprei o vestido mais caro (e mais luxuoso) da loja. Era aquele, bati o olho e soube: PRECISAVA TÊ-LO! E só me custaria mais uns cinco meses... E lembrei que os próximos cinco meses já estavam planejados para custear os sapatos. Droga! Precisava reformular tudo. Sem pânico. Supermercado, só arroz, feijão, macarrão, legumes e meio quilo de carne. Por mês. É, tava bom. Sair, nem pensar, só trabalho. Guloseimas, presentinhos, cinema, livros, roupas, tudo CORTADO. Nada de televisão e chuveiro quente, pra não aumentar a luz. Água só pra cozinha, tomar banho e fazer a higiene, e tudo pouquinho. Celular, só o imprescindível pra não aumentar a conta. Plano feito, bora colocá-lo em prática!
Uma semana antes da festa da Laurinha, estava namorando o conjunto completo que usaria quando o telefone tocou. Era a Laurinha, perguntando se eu já poderia pagar e entrada da boate que ela reservou só para o aniversário dela. Disse que checaria e retornaria. O desespero foi enorme quando vi que até os centavinhos foram desviados para pagar as faturas do vestido e dos sapatos. Eu não tinha mais um sequer! Pânico, perplexidade, incredulidade, desânimo, teus nomes são o meu! Retornei para Laurinha avisando que não poderia mais ir, não tinha o dinheiro. Como era minha grande amiga, ela deixou que eu parcelasse. Fiquei tão feliz que parecia que a festa era pra mim.
No dia da festa, na hora de me arrumar, foi que eu caí em mim, finalmente. Eu emagrecera tanto em um mês que o vestido estava sobrando, parecia um saco no meu corpo! Meu pé tambem emagrecera e o sapato estava boiando e machucando. Meu rosto estava pálido de não comer, meus dentes estavam amarelados porque eu escovava-os em 30 segundos, para economizar no shampoo, eu só molhava o cabelo. Eu estava horrorosa, não ia arrasar porcaria nenhuma. A roupa que me complementava, agora só servia para me deixar mais ridícula. Eu não combinava com a minha roupa, quando deveria ser o contrário. Mas eu fui à festa. Todos me olharam. E comentaram. Cochicharam. Repararam e falavam que eu estava diferente, dois me perguntaram se eu estava doente. Quando serviram o jantar, eu comi três vezes, e me olharam com desaprovação. Ninguém notou meu vestido e meu sapato. Eu chamava mais atenção por meu estado lastimável.
Quando acabou a festa, percebi a teia que tinha me emaranhado: dívidas, minha saúde e bem-estar prejudicados, amigos com má impressão. De que servia aquela roupa maravilhosa, se eu não me sentia maravilhosa para usá-la?
Os cinco meses passaram devagar, e eu afundando na depressão. Quando paguei a última fatura do vestido e dos sapatos, eu não tinha ânimo para mais nada. Não tinha planos para depois deles. Resultado: eu estava péssima, mas eles ainda estavam lá, perfeitos e magníficos. Só que nem eu tinha mais prazer em admirá-los e dizer que eram meus. Porque eles me causaram muito mal. Quem diria?
Decidi cobrar por aqueles danos. Cobrei a mim mesma. Me repaginei internamente. Paguei com determinação. E estarei pagando pelos próximos 30 anos, sem juros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário